
“E vós mesmos como pedras vivas, entrai na construção deste templo espiritual”.
Excelência, reverendíssima, Dom Emílio Sumbelelo, venerável bispo de Viana, nosso irmão mais velho, reverendo Padre Fila, nosso vário geral, reverendo Padre Nuno, nosso reitor do nosso santuário, os reverendos padres aqui presentes, reverendos diáconos, reverendas irmãs consagradas, Irmãs e irmãos…
Estamos em peregrinação e o nosso lema é: «Com São José, aprendamos a ser discípulos de Jesus».
O Duplo ensinamento dos papas Francisco e, de Leão XIV, que acaba de nos visitar, dizem-nos que o discípulo é sempre discípulo missionário.
É uma graça estarmos aqui hoje.
Peregrinar é caminhar. Caminhar na vida, caminhar na fé. É pôr os pés em marcha e a alma em movimento.
Peregrinar é contemplar o horizonte. Aproximar-se da verdade, ver com os olhos e compreender com o coração.
Peregrinar é compreender a nossa história no santuário: o santuário da nossa história; é aproximar-se do santo, da coisa santa, da santidade, e abraçar a graça receber a bênção, enxergar a história de Deus nos labirintos da nossa história.
Aqui estamos no lugar santo, no lugar da santidade de Deus. Santuário é lugar da transformação dos homens, maturidade espiritual e maturidade humana.
Aqui acolhemos a eternidade de Deus na história dos caminhos reais humanos, nossos.
O seu olhar para nós, para nossa miséria. Deus que escuta e que sempre escutou as nossas lamentações.
Aqui percebemos que peregrinar é vir. Vir mesmo é também voltar, voltar messmo. É compreender que Deus precisa dos meus pés, das minhas mãos, da cabeça que tenho para a sua missão no mundo dos homens, na história dos homens.
Já o cantou, o profeta poeta, o profeta Isaías, como são belos sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz que traz a boa nova, que proclama a salvação e diz a Sião, o teu Deus é rei.
Um dos grandes discípulos da nossa história da fé, Moisés, figura de Cristo no Antigo Testamento, tirou as sandálias. É o que devíamos fazer no lugar santo, tirar as sandálias. Sandálias dos pés, eventualmente dos corações e também das cabeças.
Pisar o pó santo, aquele do qual fomos feitos criados originais. Observar que a árvore da qual saíra o fruto do pecado de Eva, está agora a arder do amor de Cristo, o Cristo da Cruz, aquele que do seu lado ferido nasceu a igreja, nasceu a vida dos homens nasceu mulheres da vida nova, homens da nova missão.
É envolver-se irmãos, como Moisés, neste lugar santo, escutar, compreender a vontade do Divino Mestre, renovar e revigorar o nosso compromisso humano, a nossa fé e a nossa esperança.

Naqueles dias, diz a primeira leitura, aumentava o número dos discípulos. Nestes dias e no nosso país também aumentam estes números. Observou o Papa que aqui esteve connosco, «graças e louvores sejam dadas ao nosso Deus que permitiu esse encontro», observou, que aqui em Angola «Deus guiou e purificou a igreja, convertendo-a cada vez mais ao serviço do evangelho, da promoção humana, da reconciliação e da paz. Igreja livre para um povo livre».
O papa disse ainda nessa audiência da quarta-feira, que sentiu o pulsar do nosso coração. O arder e o ardor do coração cheio de fé. Que não se bala nem diminui, face as dificuldades, face as desilusões.
Sentiu o pulsar do nosso coração no santuário da Muxima.
Em outros lugares, disse ainda o Papa vi alegre muitas religiosas, muitos consagrados, muitos religiosos. Vi catequistas, vi rostos de idosos, vi mulheres e homens que dançavam ao ritmo de cantos de louvor ao Senhor ressuscitado fundamento de uma esperança que resiste às desilusões.
Exortou-nos, comentando a conversa daqueles dois peregrinos, se assim os podemos chamar, os discípulos a caminho da Povoação de Emaús.
Dizia o Papa: quando durante muito tempo se permanece numa história tão marcada pela dor, corre-se o risco de se perder a esperança e ficar paralisados pelo desânimo, presos em acontecimentos ocorridos sem esperança. O risco do cansaço de quem não sabe como recomeçar nem se é possível.
Estamos aqui, irmãos e irmãs, eu não tenho ilusões. Sei que estão aqui muitos com a fé trêmula. Com vontade do testemunho sim, mas com o peso da existência e dos passos dados em falso.
Aqui estarão os sem empregos que vieram a São José suplicar a intercessão. Outros, com trabalho difícil , sem dignidade, salário injusto, Riscos de abusos de todo o tipo no trabalho.
Estão aqui de certeza pais de paternidade responsável mas com filhos impossíveis, sem vontade de fazer nada, a gastar os investimentos dos pais, a desgastar a vida das suas mães.
Estão aqui provavelmente pais de duvidosa responsabilidade paternal, mas também existem aquelas mães de maternidade irresponsável.
Estarão aqui mulheres com maridos de corações duros, mas com gargantas fecundas.
Hoje devíamos louvar os pais, naturalmente estamos a fazer com a presença e a intercessão de São José, O Pai, mas deixa-me referir o que alguma vez referi numa dessas ocasiões alguns homens pensam que oração é para as mulheres e eles devem passar a vida com a garganta fresca.
E eu disse naquela altura, sem tom de ameaça: Brinquem com o tempo, que a eternidade vai vos brincar.
Não nos esqueçamos, irmãos e irmãs, a boa nova que o Papa nos trouxe e que continua nas leituras de hoje.
«Ele está vivo , ressuscitou e caminha ao nosso lado enquanto percorremos o caminho do sofrimento e da amargura, abrindo-nos os olhos para que possamos reconhecer a sua obra e concedendo-nos a graça de recomeçar e reconstruir o futuro».
É aqui que as leituras de hoje se enquadram. A construção.
Construção do nosso templo. Do templo pessoal, do templo comunitário do templo de Cristo na humanidade e para a humanidade.
Aqui é que está o segredo: Quando a vida humana é construída com pedras mortas falsas, corruptas, desajustadas, o pão de todos se perde no egoísmo de poucos. Os tais das elites com muito dinheiro e falsas alegrias se reproduzem.
E vós como pedras vivas, entrai na construção deste templo espiritual.
Construção evoca solidez e coesão. Paredes firmes e robustas evoca o aspeto comunitário do fazer a história humana.
A história que se faz juntos, com aquela alegria que renova o coração, com a interioridade que liberta, numa política verdadeira que é feita do encontro humano numa justiça que só é possível com o reconhecimento do outro. Foi isso que o Papa nos deixou recentemente.
É isto que as leituras de hoje ampliam, dando-lhe o necessário espírito. Para o bem da humanidade, há um caminho, um sentido, uma lógica. Há uma verdade que não se pode iludir com ideologias, nem com sociologias ou políticas de promessas muitas vezes não cumpridas. Há uma vida, diz a leitura de hoje, uma vida que se deve viver.
Ouvi ontem do nosso bispo as cinco marcas de São José que se constituíram na catequese que nos brindou ontem: Homem justo, pai, padroeiro, terror dos demônios. Permitam-me expressar aqui uma coisa particular que gostei muito de ouvir esta parte. «Terror dos demônios».
Há por aí muitos demônios ameaçaram a nossa vida, né? Há também muitas “demônias”, bem que isso não sei se existe, mas. Terror dos demônios. Que de fato vão pairando sobre a nossa vida, o nosso bem-estar.
Homem honesto, este São José e Prudente criou as necessárias condições para que Jesus crescesse como filho de Deus e filho da humanidade. Grande este mistério!
Esse que nos dá a lição de que nós, homens fracos, podemos fazer crescer em nós e nos outros o Filho de Deus.
Podemos levar a nossa humanidade à filiação divina. Configurados com o homem perfeito, Jesus Cristo, nosso Senhor.
É um verdadeiro discípulo, este é São José, silencioso, que muito bem funciona como sal, no seu silêncio, fermento e luz no mundo dos homens na história da humanidade.
Não lhe conhecemos palavras, não lhe conhecemos pregações, mas no seu silêncio, como aliás ouvimos na catequese de ontem, pode transformar a humanidade de todos os tempos e de todas as gerações. Com o seu trabalho, com a sua honestidade, com a sua prudência, com a sua fidelidade.
Sal, luz e fermento, são as marcas do evangelho que o Papa ainda nos recordou na sua grata passagem pela nossa vida, no nosso próprio contexto e nas nossas próprias circunstâncias, perto das nossas residências, perto dos nossos bairros.
Os apóstolos compreenderam bem esta realidade, compreenderam que a igreja é mistério e, este mistério é construção. Construção divino-humano.
Esta cooperação com o divino que humildemente precisa da cooperação humana para nos salvar. Compreenderam que estar na igreja é estar na casa de Deus; é verdade, mas, é sobretudo ser da casa de Deus. E ainda sobretudo ser a casa de Deus. Esta construção feita de pedras vivas, não de mortas, pedras vivas.
Perceberam que nós somos o fruto da salvação, somos igualmente o meio e o instrumento dessa salvação.
A igreja é obra de Deus, é verdade, mas também é obra das mãos humanas, nossa obra.
Alguns de nós nunca estamos lá.
Vemos a igreja de Delonge.
Na Promaica, não estamos lá.
Nos acólitos, não estamos lá.
No Ministério dos Leitores, não estamos lá.
No Ministério do acolhimento, não estamos lá.
No Ministério dos Catequistas, na Comissão de Construção na do acolhimento na comissão de limpeza só limpeza mesmo da nossa igreja.
Nas contribuições para a rádio da mamá, não estamos lá.
Somos pedras mortas muitas vezes.

A palavra fala de pedras vivas, porquê que nós somos pedras mortas? Aliás, nem somos pedras mortas algumas vezes somos adobos mortos.
Só queremos da igreja. Não queremos ser igreja. Outros pensamos que a igreja é uma espécie de psiquiatria para a pacificação dos espíritos e educar as consciências sobretudo daqueles que fazem barulho, muitas vezes até justamente, enquanto nós mergulhamos nas alegrias falsas.
As leituras de hoje, dizem-nos que a construção do templo espiritual coincide com a construção da vida humana.
Quando nós chegamos à maturidade espiritual, também chegamos à maturidade humana. E isso se expressa e se despeja para todos os domínios em que se inscrever a nossa vida e a nossa atividade humana.
Deve ser sim criticada uma igreja que prega uma espiritualidade desencarnada, igualmente criticada aquela que prega um humanismo sem espiritualidade.
O Papa pelo menos a interioridade e nós temos estado a defender a educação das nossas crianças para a interioridade e a beleza.
Não há vida humana propriamente dita, sem interioridade, sem espiritualidade, em consequência.
Da mesma forma que somos chamados a fazer teologia, somos também chamados a desenvolver as ciências humanas para cocriarmos um mundo mais humano. E mais divino também. Um mundo de concórdia, paz, justiça e desenvolvimento para todos.
A história da primeira leitura, quedos irmãos, não é muito simples. Este é o problema das viúvas dos elenistas, dos tais descartados, dos resíduos da sociedade , dos das periferias que não chamam, que não movem, nem comovem muitos dos nossos corações.
É uma história muito delicada esta de encontrar unidade em Cristo quando nos deparamos com o problema da diversidade.
Quantos carismas na igreja, quantos movimentos, quantas raças. Alguns movimentos às vezes ficam a lutar entre si. Quantas raças, quantas culturas, quantas tribos, quantas sensibilidades? Como pode ser possível conviver num único espaço?
A igreja tem este lado humano também, pelo qual muitas vezes é criticada. Mas ele é católica, Universal, não no sentido apenas geográfico do termo, nem da integralidade apenas da fé, mas também dos percursos espirituais diferentes.
Uns mais cedo como naquela lavra, naquela vinha da parábola do Senhor, uns chegados mais cedo, outros mais tarde, no fim um denário para todos. Uns eventualmente abandonaram pelo meio a lavoura, depois voltaram à casa, voltaram a lavra, no fim o senhor a todos recompensa.
Esta assembleia, a primeira, na história da Igreja, deve nos levar à reflexão. Não basta a oração e a pregação.
Na nossa paróquia não é suficiente o padre , só o padre. Não! São necessárias e são necessários outros ministérios. É também vital o serviço da caridade efetiva.
Aliás, quando nós rezamos para a igreja pedimos ao Senhor: «Tornai-a perfeita na caridade».
E esta, não é só o dar esmola é incluir, é acomodar, é acolher, é a fraternidade é construir o mundo com o amor de Deus, ou ainda, e ainda mais construir uma vida humana, uma vida de discípulo que salve o mundo.
“Vós sois, geração eleita”. Quanto peso nos descarrega esta segunda leitura de hoje. Quando o peso de responsabilidade! «Vós sois geração eleita, sacerdócio real, Nação Santa, povo adquirido por Deus».
Vós, queridos irmãos, nós! não está no passado isto, está a ser dito por nós. Temos aqui a possibilidade aberta e a palavra de Deus que nos confirma para sermos esta mediação da vida de Deus para a nossa humanidade.
Cristo deixou-nos a orientação clara. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.
O papa disse que «Ele vive, está aqui connosco, caminha connosco».
O Papa Francisco ensinou-nos, e termino por aqui, que o caminho evoca a imitação de Cristo, no dom ao Pai e à humanidade.
Que não chegaremos à verdade sobre o homem e sobre Deus a partir da ciência e da racionalidade. A igreja não sobrevive sem oração. A vida de Cristo, por Cristo e com o Cristo ou em Cristo, encontra-se na celebração litúrgica, no acolhimento docIL aos sacramentos, na vida sacramental e nos sacramentais.
Bem, haja aqueles que ontem estiveram cá a fazer a sua via sacra, a rezar o seu terço, a fazer a sua confissão.
Como eu dizia no princípio, agora tudo isto está sobre o altar do Senhor. Daqui a nada, tudo o que cá fizeste entra na consagração e será fruto para voltardes a casa deste santuário de São José com a vida renovada e o discipulado revigorado a exemplo e por intercessão de São José, padroeiro deste santuário, padroeiro de todos aqueles que foram evocados na catequese de hoje.
CALUMBO, 03 DE MAIO DE 2026